Monday, March 16, 2009

encontro 1

— Oi! Entra!

De onde vem essa alegria de me ver? Me dá raiva. Esses objetos da sala são tão familiares. Só agora percebo que sentia saudade deles.

— Tô fazendo chá! Quer de quê?
— Não sei. Do que tem?
— Dá uma olhada ali no armário.

Escolho uma caixa de chá que já estava aberta. Em pouquíssimos lugares me sinto à vontade para estrear um pacote de comida.

— Esse aqui.
— Tá.
— Sabe, percebi, hoje no almoço, na fila do caixa, que gosto de observar as pessoas digitando a senha quando pagam com cartão de débito. Não que eu vá fazer alguma coisa com isso... Curiosidade mesmo. Imaginar de onde veio a combinação, se tiveram dificuldade para memorizar a sequência de números... Se alguma namorada, parente ou amigo sabe a senha...
— Nossa, ninguém sabe minha senha.
— Nem a minha... Vai ferver.
— Opa, é mesmo. Ai, não escolhi o meu.

Ela escolhe um chá que estava fechado, no mesmo armário.

— Você acha que eu tenho aquele transtorno de quem pensa demais em números?
— Você é meio obsessivo.
— Ou compulsivo?
— Talvez os dois. Vamos sentar?
— Não acho que sou obsessivo... acho que sou persistente. E curioso.

Depois de uns quinze segundos de silêncio, ela levanta e retorna à cozinha. Ressurge com um copo d'água e começa a molhar o vaso com um caule de orquídea.

— Você acha que essa flor vai voltar?
— Claro que vai! Olha que linda que tá essa planta!

Seu otimismo me mata. Queimo a língua, mas sigo bebendo.

— Muito bom esse chá. Mas, olha, me esqueci de um compromisso, vou ter que ir.
— Já?
— Já.
— Que pena. Volta depois com mais calma. Queria te mostrar um projeto novo.
— Pode deixar.
— E o Rolf?
— Vai bem.
— Tchau, se cuida! Adorei te ver.
— Tchau.

Na rua, chama minha atenção a árvore em frente, toda florescida. O dia está lindo. Alívio.

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