Friday, May 28, 2010

o interstício

"É preciso, de fato, voltar ao jovem artista que faz renda com peixes e pimentões. Se ele prepara nossa comida diante de nós, conduzindo, de gesto em gesto, de lugar a lugar, a enguia, do viveiro ao papel branco que, para terminar, a receberá toda crivada, não é (somente) para nos tornar testemunhas da alta precisão e da pureza de sua cozinha; é porque sua atividade é literalmente gráfica: ele inscreve o alimento na matéria; sua bancada é distribuída como a mesa de um calígrafo; ele toca as substâncias como um grafista (sobretudo se ele é japonês) que alterna os potinhos, os pincéis, a pedra de tinta, a água, o papel; ele cumpre assim, na agitação do restaurante e no cruzamento dos pedidos, um escalonamento, não do tempo, mas dos tempos (os de uma gramática da tempura), torna visível a gama das práticas, recita o alimento não como uma mercadoria acabada, da qual só a perfeição teria algum valor (o que é o caso de nossas iguarias), mas como um produto cujo sentido não é final mas progressivo, esgotado, por assim dizer, quando sua produção é terminada: é você que come, mas foi ele que jogou, escreveu, produziu."

Roland Barthes, O Império dos Signos

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