Tuesday, March 6, 2012

reabilitação


A Plaza de la Encarnación é uma verdadeira surpresa numa caminhada casual em Sevilha. Quase um peru no pires.
Nosso retratado, representante da terceira idade sevilhena, Sr. Alfonso, acompanhou de perto a "encarnação" dessa estrutura.
A vida vinha sendo um tédio: viúvo, poucas horas de sono, canal televisivo Giralda noticiando repetidamente investimentos assombrosos da prefeitura em edifícios utilizados por pessoas que ele desconhece - além de alguns atentados políticos, filhos desinteressados em seus assuntos repetitivos por culpa da tevê Giralda e total impaciência para cuidar do passarinho, presente da filha - que resultou na doação do passarinho a uma vizinha que, aparentemente, queria provocar ciúmes a um gato de estimação. Perversidades.
Alguns anos atrás, duas novidades chegaram à casa de Alfonso. Uma, por telefone: pai, você vai ser avô. A segunda, pela tevê Giralda: o governo iniciaria mais um mega-investimento, desta vez, a dois blocos de sua casa.
Uma depois da outra, as duas novidades sacudiram o senhor para longe da poltrona da tevê.
Na primeira infância do Pepe, Alfonso não esteve muito próximo. O bebê interagia de maneira vaga e inconstante, causando desinteresse no avô.
A novidade favorita nesses primeiros anos foi mesmo a evolução daquela estrutura esquisita, aquele jogo de encaixes meio amorfo, sustentado por duas colunas gigantes, que prometia encarnar na Plaza.
Passeou todos os dias, desde as fundações da obra, pelo entorno da Plaza, questionando-se sobre a real possibilidade daquilo ser erguido e sobre até onde a soma de milhões de Euros iria chegar.
Acompanhou etapa por etapa, fundação por fundação, concretagem por concretagem, madeira por madeira, euro por euro, em caminhadas que viraram hábito diário.
Depois de 6 anos de obra minuciosamente acompanhados, a nova estrutura da Plaza ficou pronta. No dia da inauguração, Alfonso sentiu um despropósito em continuar fazendo caminhadas e previu ressurgir o tédio anterior a esta obra grandiosa e parceira. Decidiu fugir daquela inauguração que seria a comemoração do fim da sua animação diária para caminhadas. Fugiu indo visitar o filho e o neto.
Pepe, aos 6 anos. Que intessante. Falando muito, olhando atento, contando suas atividades na escolinha, explicando um jogo, perguntando sobre a vida do vovô. Que delícia seria acompanhar, dia após dia, etapa por etapa, este homenzinho...
— Então, pai, tive aquela promoção no emprego! Bom, não é? É... o Pepe que ficou chateado, não posso mais buscá-lo na escola, estou vendo com o...
— Ah! Não seja por isso! Irei todos os dias! Não se tem nada melhor a fazer mesmo nessa cidade...

...

— Pepe, o que você acha dessa nossa praça?
— Parece um abacaxi, vovô.

Decidido: um abacaxi no pires. Ao menos serviu para alguma distração.

janeiro de 2012

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