Thursday, April 26, 2012

as manhãs deveriam ser ocupadas com a escrita. solta e contaminada pelo sonho — aquele que não lembro agora, mas que atravessará minha cabeça em uma fração de tempo incalculável quando você estiver na calçada, vindo em minha direção.
você virá com sua silhueta, gravada na minha memória desde o primeiro dia. primeiro dia de quê?
e desenho agora, sobre um papel cheio de anotações ilegíveis, o contorno dos seus ombros e cabelos que formam você. a única coisa que você trará com certeza, na sua caminhada até mim, é sua silhueta. e todo o resto que virá de você para mim são incertezas. me sustenta em paz o incontestável: quem vem é, definitivamente, você.
tem trilha sonora para a escrita. aquela que me deixa sensível, pertinho mesmo do choro, encostada nele. tudo que escrevo é verdade — verdade vinda dessas imagens nubladas que fizeram o sonho dessa noite, em que ele foi você e ao mesmo tempo meus pais, aquela cidade que não conheço e aquele dia, já distante, em que seu sorriso, a casa dos meus avós, uma queda de avião, o meu primo estava vivo, aquela festa em que fiquei doida, o dia em que rolamos na areia da praia no norte do brasil, enquanto eu estava grávida não temia a maternidade, o desmoronamento do prédio e uma queda, infinita, um mergulho macio nas águas que também são fogo e lama. uma matéria impossível, inventada nesse sonho.
mas a manhã é curta. tem reunião, e o equipamento da filmagem, a responsabilidade, o deslocamento e a cozinha. o fogão.
tem um pouquinho de fogo em todo dia-a-dia.

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